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  1. O EDUCADOR AUTÊNTICO

As principais atitudes do pesquisador, que são não apenas distintas, mas, em geral, diametralmente opostas às de um autêntico educador, infelizmente não podem ser descritas sem que se recorra a uma aparente “repetição”, pois apesar da mudança de perspectiva, somos levados, como já se alertou na Apresentação, a voltar a problemas como os da “redação” ou da “explicação”.

A principal preocupação de um professor autêntico é compreender as descobertas para explicá-las aos alunos. Para o professor atingido pelo “vírus pedagógico”, toda proposição obscura é um desafio que o obriga a descobrir um modo de explicação mais claro. Assim, seu comportamento diante de textos difíceis assemelha-se ao do pesquisador diante dos enigmas da natureza. Enquanto o cientista autêntico busca o prazer de descobrir, o professor autêntico busca o prazer de compreender, para ele mesmo e sobretudo para os outros.

O bom professor não se limita a transmitir explicações correntes, mas busca encontrar novas explicações: mais claras, mais elegantes, mais modernas. O que ele procura não são novos resultados, mas novas formas de exposição, ainda mais concentradas, mais sintéticas, mais facilmente assimiláveis que as antigas. No caso particular da matemática ou da física teórica é frequente encontrar novas demonstrações de teoremas conhecidos.

Observemos também, numa ordem de ideias um pouco diversa, que o professor se interessa tanto pelo caminho que conduz a esta ou aquela nova descoberta quanto pelo resultado final. O professor deve explicitar os métodos de pesquisa, enquanto o pesquisador pode se permitir deixar-se guiar por sua intuição.

De maneira mais geral, algumas das liberdades de redação, das quais o pesquisador usa e abusa, não são permitidas ao professor. E preciso que ele esteja atento para situar aquilo que ensina em relação aos conhecimentos de seus ouvintes ou de seus leitores, seja para relacionar o novo ao conhecido, seja para destacar aquilo que esta ou aquela descoberta contém do realmente original. Ele se dirige a “ignorantes” e deve, por isso, necessariamente remontar à origem dos resultados enunciados e justificar aquilo que afirma. Ele não pode se limitar a dizer coisas verdadeiras: é preciso que diga, ou escreva, coisas que se relacionem de forma clara com os conhecimentos de seus ouvintes ou leitores.

Após um diagnóstico dos conhecimentos dos seus alunos, em geral muito inferiores em termos de quantidade e de qualidade ao conjunto de conhecimentos estabelecidos em um certo âmbito num dado período, seu trabalho consistirá em organizar suas exposições, escritas ou orais, de modo que as diferentes partes se expliquem mutuamente, e se expliquem em função dos conhecimentos daqueles que ele busca instruir. A vocação para o ensino supõe, portanto, um interesse suficientemente vivo pelas ideias gerais e pela maneira pela qual é possível classificá-las racionalmente.

A preocupação com a explicação em geral obriga o professor a se esforçar por redigir com ordem e clareza. Ao contrário do pesquisador, ele não está obcecado pela rapidez na execução de seu trabalho. Ele busca a perfeição e se concede todo o tempo necessário para se esmerar na forma de seus cursos e de suas obras didáticas. É claro que existem aqueles professores, que não fazem qualquer esforço neste sentido, por entenderem que a obscuridade de sua exposição é uma qualidade, e que “é bom” para os alunos serem induzidos a um esforço de elucidação, pois isto exercitaria sua sagacidade. A dificuldade de compreender uma explicação obscura é apresentada como um elemento útil na assimilação de um aluno. Existe na Universidade um esnobismo do curso hermético: quanto mais um curso é incompreensível, mais o status do eminente professor se eleva, sobretudo se isto é associado ao brilho superficial de uma certa facilidade retórica.

Os estudantes sabem, por sua vez, o que podem esperar das virtudes de um ensino obscuro. Sabem que o esforço reclamado por um curso mal construído não é rentável: existem exercícios bem mais eficazes do que aqueles que consistem em corrigir um trabalho descuidado. Não se deve confundir a eficácia de um professor exigente com a pseudo-eficácia de um professor hermético.

Sem dúvida, exposições obscuras põem à prova a perseverança e, até certa medida. exercitam a tenacidade do aluno. Mas como em geral a dificuldade leva a imperfeições na “decodificação” (anotações ou terminologias ambíguas, conceitos mal definidos, erros de impressão, etc.), este tipo de esforço exigido do aluno não é o mesmo que ele empregará para a resolução dos problemas reais, mesmo que isto seja bom, por exemplo, para que ele não se detenha diante dos inumeráveis erros que são frequentes em certas publicações.

Pode-se, pois, concluir, como C. Gruson (GRUSON 1971), que a simbiose de ensino e pesquisa não pode se realizar, na maioria das situações, num mesmo indivíduo.