Rio de Janeiro, 20.11.2009

Visões e Reflexões

 

Desisti de Te achar no quer que seja,
De te dar nome, rosto, culto, ou igreja …
- Tu é que não desistirás de mim! (JOSE RÉGIO - Biografia)

 

O pensamento de Zygmunt Bauman está sempre em consonância com a atualidade provocando reflexões que transcendem o nosso diálogo coloquial remetendo-nos a uma realidade inexpugnável e concreta.1

O seu conceito de “Modernidade Líquida” que define o presente como um momento em que a sociedade se envolve em processo que transforma o cidadão, sujeito de direitos, em indivíduo em busca da afirmação no espaço social, que abre passagem para mudanças nas estruturas de solidariedade coletiva para as de disputa e competição, que convive com o enfraquecimento dos sistemas estatais de proteção às intempéries da vida gerando uma permanente incerteza, que aponta os eventuais fracassos para o plano individual, que estabelece o fim do planejamento em longo prazo e o divórcio entre poder e política.

O poder fora da política e o fim do planejamento em longo prazo têm o significado da inexistência da utopia e para que ela seja resgatada é preciso que se tenha a noção de que o mundo está mal e deve ser modificado e que o homem sabe que deve agir e tem a certeza do que deve ser feito para modificá-lo e ter a força e a coragem para fazê-lo.

O potencial humano desafiado é capaz de mudar o mundo.

Na era pré-moderna, segundo Bauman, a figura do homem metaforicamente é a do caçador defendendo o seu espaço imediato, o equilíbrio natural e pensando que as coisas estão boas e que Deus cuida com a sua sabedoria suprema muito superior à dos homens.

No mundo moderno, ainda segundo Bauman, a metáfora da humanidade é a figura do jardineiro que sabe da não existência da ordem no mundo, mas acredita que no esforço coletivo da humanidade ludo pode ser resolvido. Ele elabora o seu arranjo de “plantas” na sua cabeça e depois o executa. O jardineiro é um fazedor de utopias.

O caçador não garante espaços na floresta para outros caçadores, nem permite que haja reposição do que foi tirado. É possível que no futuro se esgotem as reservas, mas isto não importa ao caçador. Somos todos caçadores inevitavelmente e nem percebemos ao olharmos em volta que existe uma multidão de caçadores solitários perdidos no que denominamos de “individualização”. De repente parece-nos ter visto um jardineiro que contempla uma harmonia construída além da barreira do seu jardim privado. Ao contrário são milhares de caçadores no entretenimento individual de suas ambições.

Neste mundo povoado de caçadores não existem espaços aparentes para utopias sociais. O Thesaurus, de 1892, de Roget, considera utopia o fantástico, fantasia, impraticável, irracional, fictício, o fim da própria utopia.

A ideia de progresso foi transferida da melhoria partilhada para a de sobrevivência do indivíduo. O conceito do progresso não é um desejo de corrida, mas de se manter correndo, o truque é manter o ritmo das ondas e se não quiser afundar mantenha-se surfando. Mude o guarda-roupa, o mobiliário, o papel de parede, o olhar, os hábitos, mude você mesmo quantas vezes puder, até livre-se de você mesmo, mas continue na vidinha.

Imagine se você não trocasse de carro, não comprasse roupa nova, não trocasse a geladeira ou a televisão, o cosmético, o computador, os móveis para onde iria a economia consumista?

Ser um caçador é uma compulsão, uma dependência. Atingir uma lebre prenuncia o fim das expectativas salvo se houver outra lebre a ser caçada. Para o caçador não existe missão cumprida, não há descanso e gozo do saque, até a eternidade.

Para os caçadores a perspectiva de um fim de caça é assustadora, significa a derrota.

Para os jardineiros a utopia aponta para a paz, para o fim da labuta, para o descanso, mas para os caçadores a utopia é um sonho de luta que nunca termina.

Mas, a vida continua como cita Miguel Absensour em “Persistent Utopia” inspirado em William Morris, em 1886, que escreve que os homens lutam e perdem a batalha e os motivos das lutas, mesmo derrotados, transformam-se com outros significados e outros homens tendem a lutar por aquilo mesmo com outro nome.


1. Modernidade líquida. O conceito de modernidade líquida foi desenvolvido pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman e diz respeito a uma nova época em que as relações sociais, econômicas e de produção são frágeis, fugazes e maleáveis, como os líquidos.