Rio de Janeiro, 01.02.2008
Uma questão de prioridade
O cansaço físico, mesmo que suportado forçosamente, não prejudica o corpo, enquanto o conhecimento imposto à força não pode permanecer na alma por muito tempo. (PLATÃO)
Uma das grandes questões da atualidade reside na construção de um mercado de trabalho capaz de absorver os numerosos contingentes populacionais por níveis de qualificação em busca de emprego.
Não existem mais dúvidas de que o progresso científico e tecnológico e o consequente desenvolvimento tecnológico das nações não mantêm correlação com o crescimento do emprego e, ao contrário, demandam um menor número de trabalhadores e com maior qualificação e conhecimento.
No Brasil, as variáveis se tornam mais complexas quando colocadas diante dos indicadores do desemprego e do subemprego que, segundo estatísticas imprecisas, ultrapassam 20 milhões de trabalhadores.
Por outro lado, é conhecido o despreparo educacional da força de trabalho brasileira, com deficiências alarmantes de escolarização.
O quadro se completa quando associamos conjunturas desfavoráveis e planos recessivos como os atuais que geram profunda instabilidade no mercado de trabalho e urna estrutura frágil e ineficiente de proteção ao trabalhador desempregado.
Percebe-se que o desafio brasileiro passa por duas vertentes: educação e trabalho e, em ambas, as presenças da escola e da empresa.
De um lado, o setor moderno da economia, demandando profissionais de elevada qualificação, técnicos de nível médio, engenheiros, pesquisadores e operários altamente qualificados em números relativamente reduzidos, cerca de 20% do contingente empregado, quando comparados com os elevados padrões de produção de alta competitividade e de exigências qualitativas dos operários qualificados e dos semiqualificados, que representam cerca de 60% da mão de obra ocupada.
Do outro, o setor tradicional que deve ser desenvolvido para tornar-se viável no admirável mundo novo da globalização da economia e mesmo elo atendimento dos mercados internos nacional e regional.
Na interseção, a pressão social de milhões de trabalhadores oprimidos pela insensatez de políticas governamentais concentradoras de remia, de um lamentável sistema tributário, de um ineficiente planejamento habitacional convivendo com indicadores sociais desumanos que comprometem os padrões que permeiam o desenvolvimento e a expansão do sistema produtivo.
O encantamento da pesquisa científica e aplicada e as supostas atrações dos cursos de nível tecnológico superior e de formação de técnicos de nível médio devem ser reexaminados em seus quantitativos.
Serão principalmente ações suplementares em segmentos da atividade industrial ainda pouco atendidos pela capacidade instalada das Escolas Técnicas Estaduais e Federais, das Universidades e dos Institutos Tecnológicos e, sempre que possível, em decorrência de articulações que incorporem experiências e conhecimentos de terceiros, particularmente dos países tecnologicamente desenvolvidos.
A formação do trabalhador qualificado com ênfase em modelos educativos, que priorizem a polivalência profissional e uma educação básica, como a Educação de Jovens e Adultos a Distância, identificada com os atributos da cidadania, do raciocínio lógico, da capacidade de interpretar linguagens, da visão espacial, do estabelecimento de juízos de valores, da criatividade e da iniciativa, do respeito aos preceitos de segurança, da moral e da ética profissional, eis a grande missão da Educação Profissional.
O treinamento dos contingentes empregados, sem dúvida uma outra prioridade, deverá igualmente enfatizar os pré-requisitos educativos indispensáveis à assimilação das mudanças tecnológicas e a um desempenho qualitativamente apreciável.
A Educação Profissional é mais do que antes a prioridade.